Sertão é por os campos gerais a fora e a dentro,
eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia...
Lugar sertão se divulga: é onde os pastos
carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas,
sem topar com casa de morador...


Sertão é o sozinho(...)Sertão: é dentro da gente.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Buritizinho

Um cercado com uma capela branca no meio, um barracão à esquerda e três pequenas casas à direita, gramado e areia; foi o que vi quando cheguei em Buritizinho.
O lugar parecia vazio, mas decidi entrar. Passei a porteira de madeira e fui chegando, empurrando a bicicleta. Logo vi um moço novo que estava numa das janelas do barracão, tinha uma roda de motocicleta na mão, usava chapéu de couro, botas e calça jeans. Ele tentava consertar um furo no pneu. Não estava sozinho, havia ainda duas pessoas no local: um senhor e uma menina de uns vinte e poucos anos – ou mais. Ela cozinhava, o velho e o moço esperavam.



Não eram parentes, talvez a moça e o velho. O moço – depois fui saber sua história –, chamava-se Diego, nascera em Corinto, perdera a mãe muito cedo e fugira de casa porque o pai era alcoólatra. Acabou sendo criado por um morador de fazenda da região, que por um tempo lhe deu emprego e lhe ensinou o ofício de cerqueiro.
Muito interessado em me ajudar, Diego explicava com apuro de detalhes o caminho para Andrequicé. - Disse a eles que seguia para Três Marias mas desejava passar antes pelo povoado de Andrequicé.



(A esta altura já tinha sido convidada a almoçar com eles)

Entrei no barracão – que era uma grande casa, na verdade, onde a cozinha detinha o maior espaço – e, antes que comesse pedi para lavar o rosto e as mãos, imundas de poeira. Voltei toda molhada, pois não havia toalha para me secar. De qualquer modo, estava muito calor e eles não se importaram.



Utma, a moça, se desculpou pela comida ser simples demais e antes de serví-la perguntou se eu aceitava um cafezinho. Obviamente que sim, não queria que pensassem que sou enjoada – embora não goste muito de café –, e também porque nessas ocasiões acredito que temos que nos permitir e aceitar abertos o que o outro nos oferece.



O almoço podia ser simples, mas cozido no fogão a lenha e com tempero mineiro era banquete. Havia arroz, feijão, salada de tomate e linguiça frita. Perguntou se eu aceitava um ovo frito, ela preparia. Aceitei.

Ficamos conversando enquanto almoçava. – Esperava que fossemos comer todos juntos, mas não. Comi sozinha, eles só fazendo companhia. Diego ainda na janela, o senhor sentado perto de uma televisão e Utma, entre o fogão e a mesa.

Utma era de pouco assunto, no entanto Diego e o senhor permaneciam perguntando e falando da região. Pareciam animados com minha presença, perguntavam-me sobre o Rio de Janeiro, a violência, sobre minhas impressões do lugar, porque eu estava ali. Estavam intrigados com minha iniciativa, ao mesmo tempo havia fascínio e respeito. O senhor ainda explicava que Buritizinho era o ponto mais alto da região – até precisou a altitude em números – e comentava das festas de santo que costumavam celebrar ali. Vinha gente até de Três Marias, completou.



Terminado o almoço, quedei ainda um tempo tirando fotografias e papeando. Um conhecido deles acabava de chegar a cavalo. Não lembro o porquê, mas perguntou se eu sabia montar e ofereceu seu cavalo para eu dar uma volta. Agradeci mas disse que não poderia ficar mais tempo no sentido de evitar estar na estrada quando anoitecesse. Tomei outro café e fui ter com Diego para que ele desenhasse o caminho para Andrequicé.

O garoto foi extremamente preciso nas informações. Seu mapa seria infalível se eu tivesse considerado que uma tal placa, que ele disse haver num momento onde eu deveria virar a direita, fosse algo pequeno e legível somente para quem vinha no sentido contrário ao meu.

Imaginando que eu já tinha enfrentado o “areião” e o “poeirão” que me disseram em Morro da Garça, Diego me desiludi dizendo que eu só tinha passado por poeira até ali, o areião começava agora.

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